Sergio Mello - foto: Edson Kumasaka
foto: Norberto Avelaneda

Para a segunda edição de Download Dramaturgia, convidamos o dramaturgo, ator e diretor paranaense Joeli Pimentel.  Radicado em São Paulo há alguns anos, Joeli já atuou em mais de cinqüenta peças. Contracenou com Paulo Autran e fez parte de grupos como Armazém e Cemitério de Automóveis. Em 2003, fundou junto da atriz Danielli Avila, sua própria Companhia de teatro, a Desencontrários. Desde então, vem montando textos de sua autoria como Ontem á noite fiz minha garota chorar, Jovens Suicidas, Mother Fucker – o começo de uma banda de rock and roll, Comprei um treisoitão e fui brincar com Deus (com o qual recebeu o prêmio de novos dramaturgos no Rio de Janeiro em 2002) e a peça infantil O Ursinho que não queria dormir. Além de seu trabalho voltado para o teatro, Joeli já dirigiu um longa-metragem amador, atuou em O Invasor, filme de Beto Brant, e assinou dois curtas: O Vagabundo Sagrado e Betty Quer Morrer (adaptação de uma de suas peças). Este último foi selecionado para a 33º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizada em 2009. Dirigiu também Na velocidade dos anos todos tão desesperados, com estréia prevista para ano que vem.

Em Joeli Pimentel: Jovens Suicidas e Sangüíneo apresentamos Jovens Suicidas, peça escrita em 2005. Formada por duas histórias, Cercado e Betty Quer Morrer, o texto teve direção do próprio autor e foi encenado no mesmo ano, cumprindo temporada no Teatro Next, Cacilda Becker e Arthur de Azevedo. Em 2006, foi apresentado no Centro Cultural São Paulo e no teatro Martins Pena. A produção ficou a cargo da Cia Desencontrários, contando com Danielli Avila, Janaína Fainer, Marco Plá, além do próprio Joeli no elenco. Sangüíneo foi escrito em 2007, é o sétimo texto do autor, mantendo-se inédito nos palcos. Baseado na frase do filósofo Nietzsche “O homem é um animal doente”, o texto mistura personagens que perecem saídos de uma História em Quadrinhos com um clima noir, onde há pitadas de história policial e ficção científica. A edição do livro, com link para download no final desta matéria, é da revista Etcetera e conta com fotos de Norberto Avelaneda e capa de Douglas Silva. Acompanhe abaixo uma entrevista exclusiva com o dramaturgo.
(Sandro Saraiva).

Concorda com o ator e escritor Márcio Américo, você é uma mistura de Woody Allen, Campos de Carvalho, Machado de Assis e Mazzaropi? Quais autores você tem como referência para seu trabalho de dramaturgo e diretor?

Sim, concordo. Minhas referências dramatúrgicas são os escritores: Paulo Leminski, Pedro Juan Gutierrez, Bret Easton Ellis, Jack Kerouac, Jack London, Machado de Assis, Gabriel Garcia Marques, Matso Bashô, Cruz e Souza, Woody Allen, James Ellroy, David Goodis e Graciliano Ramos. Os diretores de teatro que me influenciaram são: Nitis Jacon, Daniel Uribe, Paulo de Morais, Rodolfo Garcia Vázquez, Betty Lopes, no cinema: Beto Brant, Quentin Tarantino, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Orson Welles.

Queria que você  falasse um pouco de seu processo de criação nas três frentes que  atua: como dramaturgo, na composição de um texto; como ator, na construção de um personagem; e como diretor, na concepção de uma cena.

Escrever um texto é uma batalha, você sente mal estar, enjôo, depressão para no final se superar, vencer seu pior crítico: você mesmo. Terminado o texto, o deixo descansar por um tempo. Depois entra o diretor que corta falas, muda cenas, trocando por miúdos: Faz a ponte entre a história do autor e o público do espetáculo. Só então que entra o encenador, o mágico, com suas luzes, sombras, distribuindo atores e objetos para compor um quadro harmonioso, cheio de caos cênico; trabalhando altura, largura e profundidade do palco feito um fotograma de filme, mas carregado de significados e sentimentos (qualquer trabalho tem que provocar meus sentidos, se for só cerebral, fujo).  Minha função na direção de ator basicamente se resume em ajudar os atores a não forçarem a barra e descobrirem neles mesmos a força do personagem e lembrá-los que todo o dia tem que ser uma estréia, que não se entreguem a rotina, que sejam super heróis, é o momento de sermos Deuses de nossas vidas tortas. Como ator sempre gosto de fazer a backstory do personagem, assim posso ver que a situação atual é sempre conseqüência de decisões e acontecimentos passados. Um bom ator é aquele que está sempre raciocinando os fatos, gerando uma ação mental para quando for andar, falar ou mesmo quando está pensando tenha vida suas idéias, para poder passar ao público o que ele está sentindo só com o olhar.

O que mais te atraí  na linguagem teatral e o que você  evita sempre que escreve um texto?

Fazer com que o público imagine um mundo todo só dando a ele uma fechadura. Tento não chatear o público, acho que às vezes consigo.